Provavelmente você já ouviu a música “Vivendo aqui no mato” – gosto especialmente da versão do Trio Parada Dura com Zé Neto & Cristiano. Depois que eu e Júlio construímos uma casinha cercada pela Mata Atlântica e nos associamos à AMOAVES, o mato se tornou nosso lugar preferido para o lazer.
Hoje, qualquer passeio é muito melhor se tiver uma estrada de chão, umas matas, florestas ou banhados, porque sabemos que iremos encontrar passarinhos.
No início de agosto de 2026, viajamos de férias para Minas Gerais. Passamos pela Serra do Cipó, em Santana do Riacho; pela Serra da Canastra, em São Roque de Minas; por Capitólio e Ouro Preto. O objetivo não era fotografar aves, mas… sempre é também, rsrsrs.
Serra do Cipó: seca, belas paisagens e 10 lifers
A falta de chuvas na região da Serra do Cipó afetou bastante o lugar. Cachoeiras secas — como a famosa Véu de Noiva —, lagoas imensas quase sem água, terreno muito árido e nada de flores.
Aliás, as plantas do Cerrado são muito bonitas. Parecem mortas e secas, mas não estão. Apesar desse cenário, fotografei 68 espécies de aves, a maioria já conhecida. E fiz dez lifers por lá: arapaçu-do-cerrado, canário-do-mato, chorozinho-de-bico-comprido, chorozinho-de-chapéu-preto, cigarra-do-campo, guaracava-de-topete-uniforme, periquito-de-encontro-amarelo, pipira-da-taoca, soldadinho e suiriri-cinzento.
Tudo achado em beira de estrada ou parques, na pura sorte. Também vi, ouvi e gravei o áudio do uí-pi, mas nada de foto.

Cigarra-do-campo – casal
Capitólio: cidade linda e um passarinho misterioso
Da Serra do Cipó, viajamos para Capitólio. Lá visitamos o Complexo da Capivara, que, nas fotos, parecia lindo. E é lindíssimo, mesmo com pouca água.
No complexo, dois guias orientam os visitantes sobre o caminho, os perigos e os cuidados que devem ser tomados. Conversamos sobre pássaros com o Guilherme e, desde então, trocamos mensagens. Sempre que aparece algo novo, ele me envia uma foto.
Estou esperando o dia em que ele consiga fotografar uma ave que disse se assemelhar a uma pequena codorna, carijó, sem rabo e muito arisca. Só a viu algumas vezes por lá. Mistério ainda sem solução.
Depois do passeio, já prontos para entrar no carro e voltar, avistei alguns pássaros no chão, na entrada do restaurante. Fotografei. Meu único lifer no local: batuqueiro.

Pipira-da-taoca
Serra da Canastra: poeira, sol e o Rio São Francisco
No dia seguinte, fomos para o Parque Nacional da Serra da Canastra. Um lugar tão grande que cansa. É uma estrada infinda, subindo por uma serra interminável.
Lá em cima há cachoeiras — não fomos. Já tínhamos percorrido uns 18 quilômetros de estrada empoeirada e, até a cachoeira, seriam mais 10 quilômetros.
Você fica no topo de tudo, mas só vê paisagens e céu. E terra. E sol. E às vezes pássaros.
O calor era quase insuportável, muita poeira, e, mesmo assim, você não sua — nem uma gota sequer.
Lá no alto, conhecemos a nascente do Rio São Francisco. Achei incrível! Um pequeno oásis no meio daquela vegetação quase rasteira.
Também fiz um lifer: o galito. Encontramos o bichinho na beira da estrada empoeirada, mas ele voou e tive que fazer a foto de longe.
De volta a Capitólio, ainda fiz um registro de áudio da saracura-três-potes. Elas cantavam toda madrugada ao lado da pousada.
No total, fotografei cerca de 40 espécies diferentes. E também fiz lifers do beija-flor-tesoura-verde e da marreca-caneleira.


Marreca-caneleira e Beija-flor-tesoura-verde
Ouro Preto: pedras, igrejas e muitos mistérios
No dia seguinte, partimos para Ouro Preto — um lugar para se conhecer.
Uma cidade de pedra, do chão ao teto. Parece feita de LEGO. Praticamente não há baixadas, só morros para todos os lados. Quase todas as construções antigas são coladas umas nas outras — exceto as igrejas.
E elas são realmente belíssimas! E misteriosas…
Pensa comigo: as igrejas são muito altas. Você entra no térreo e vê a nave central, mas ela não parece tão alta quanto a visão que temos lá de fora. E, então, descobre que, abaixo dos seus pés, há furos na madeira centenária que devem levar a porões. Quantos segredos guardam essas construções?
Parque das Andorinhas: aves, aventura e uma pequena cachoeira azul
Fomos ao Parque Municipal Natural das Andorinhas, na expectativa de encontrar algumas aves da minha pesquisa. Mas o silêncio, o calor e a falta de água predominavam no lugar.
Pra variar, o parque fica no alto. Muito alto. Acima de tudo.
Graças ao Waze, subimos por uma rua de paralelepípedos sem fim, que só permitia a passagem de um carro por vez. Acho que foi uma meia hora de subida. Por várias vezes, achei que o carro não daria conta e que iríamos rolar mil vezes até chegar lá embaixo.
Na volta, o Google foi generoso e nos mostrou a outra estrada: asfaltada, pista dupla, tudo tranquilo. Ufa!
Lá no parque, poucas espécies. Paramos na estrada, quase chegando à recepção. Um beija-flor cantava insistentemente, mas não vimos o danado. Uma choca-de-chapéu-vermelho também cantava, e nada de vê-la.
Então me distraí seguindo um movimento na vegetação e consegui fotografar o meliante: formigueiro-da-serra. Que bom! Lifer para mim.
Nem andorinhas havia por lá. Fiquei sabendo que, no dia anterior, o lugar estava lotado delas.
Pegamos a trilha da Cachoeira das Andorinhas e, no final, nos arriscamos entrando em uma gruta. Lá no fundo, descortinava-se uma pequena cachoeira, cujas águas caíam azuis, iluminadas pelo sol que atravessava as frestas entre as pedras.
Gritos empolgados vinham lá do fundo. Um guia aguardava seu grupo de quatro turistas, todos muito simpáticos e animados.
Saímos todos de lá. Retornei sozinha porque queria gravar um vídeo. Desci o buraco por uma pequena escada, e o barulho das águas, misturado ao silêncio das pedras, provocou minha mente com pensamentos sombrios.
Gravei o vídeo e me esgueirei de volta, serpenteando sobre as pedras para sair rapidamente de lá.
Melhor experiência do dia!

Formigueiro-da-serra – fêmea
Uma viagem rápida, mas cheia de descobertas
Acredito que, se a viagem fosse guiada, teria feito muito mais registros. Ou não! Afinal, a natureza é sempre surpreendente.
Mas amamos o passeio, as pessoas que conhecemos e os lugares por onde passamos. Acredito que o ideal seria permanecer ao menos três dias em cada cidade, mas só tínhamos uma semana no total.
Então, foi excelente!
E, no fim das contas, não era uma viagem para fotografar aves. Era só uma viagem de férias. Mas os passarinhos não sabiam disso.
Outras imagens da viagem:















Texto
Nilda Miranda
Associada da AMOAVES
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