Ainda é madrugada quando os primeiros cantos rompem o silêncio das florestas, matas, restingas e manguezais, cerrados e capões, caatinga, bosques e também das cidades. E, antes mesmo que a luz atravesse as copas das árvores, munidos de binóculos e câmeras, e com ouvidos e olhos treinados, os observadores de aves percorrem trilhas e brejos em busca de um som específico — às vezes raro, às vezes quase esquecido. Eles buscam uma espécie nova de ave.
Atuando de forma colaborativa ao longo dos anos, os associados da AMOAVES têm acumulado registros que ampliam o conhecimento sobre espécies endêmicas, raras e migratórias no estado do Espírito Santo. Entre descobertas emocionantes e os “lifers”, os observadores se consolidam como verdadeiros guardiões da avifauna capixaba. Para eles, cada saída a campo é mais do que uma atividade contemplativa: é um exercício de ciência cidadã, compromisso ambiental e paixão pela biodiversidade.
A EMOÇÃO DO PRIMEIRO ENCONTRO
No universo da observação de aves, “lifer” é a espécie registrada pela primeira vez por um observador. Quando esse registro ocorre dentro dos limites de um município, ele passa a compor a lista municipal, e quando ocorre pela primeira vez no estado, ele é um “lifer estadual”.
Ouvir, ver e ainda conseguir fotografar uma nova espécie é um momento de grande emoção. Seja uma ave comum ou rara, é igualmente satisfatório. E quando é uma espécie nova, uma migratória que está só de passagem, que por acaso cruza o seu caminho, esse encontro é quase surreal. É como receber um visitante que você nem sabia que existia, mas está ali, na sua frente. É mágico!
Mais do que uma marca individual, cada novo lifer representa também um dado relevante para o conhecimento científico. À medida que observadores ampliam suas listas de espécies registradas, contribuem para consolidar informações sobre distribuição geográfica, sazonalidade e presença de espécies pouco documentadas.
Geralmente, os registros realizados pelos associados são compartilhados em plataformas colaborativas como o WikiAves e o eBird. Esses bancos de dados permitem que pesquisadores, gestores ambientais e instituições utilizem as informações para estudos, relatórios técnicos e planejamento de ações de preservação.
Assim, o que começa como a identificação de um canto na mata transforma-se em dado científico acessível à comunidade acadêmica, órgãos ambientais e também ao público em geral.
Entre os associados da AMOAVES, diversos observadores já alcançaram números expressivos de espécies registradas no Estado, resultado de muita dedicação a diferentes ambientes, da restinga litorânea às áreas serranas, dos fragmentos urbanos às reservas mais preservadas, como Reserva Natural da Vale, em Linhares; Reserva Biológica de Sooretama, em Sooretama; Reserva Águia Branca, em Vargem Alta e Reserva Caetés, em Castelo.
ASSOCIADOS DA AMOAVES AUTORES DE LIFERS ESTADUAIS
Nilda Miranda
Piuí-verdadeiro-do-leste (Contopus virens) – pequeno papa-moscas da família Tyrannidae, migratório, que viaja da América do Norte para o Brasil, ocorrendo sazonalmente. Registrado no Sítio Baixa Verde, em Santa Maria de Marechal – Marechal Floriano/ES, em 2025.

Corrupião-de-baltimore (Icterus galbula) – espécie migratória que se reproduz no hemisfério norte – EUA e Canadá. Registrada em Viana-ES, em 2026.

Lázaro Ribeiro
Casaca-de-couro (Pseudoseisura cristata) – espécie endêmica da região nordeste do Brasil. Registrada em São Mateus-ES, em 2025.

Emerson Monhol
Saíra-de-papo-preto (Hemithraupis guira) – espécie presente localmente em grande parte do Brasil, com exceção do noroeste da Amazônia. Registrada em Campinho – Domingos Martins/ES, em 2024.

Ademir Carletti
Garrinchão-de-bico-grande (Cantorchilus longirostris) – espécie endêmica do Brasil, característica da Caatinga e da Mata Atlântica. Registrada em Guaçuí/ES, em 2018.

Filipe de Souza Oliveira (Filipe Birder Caparaó)
Pi-puí (Synallaxis cinerascens) – espécie que ocorre nas regiões Sudeste e Sul do Brasil. Registrada em Iúna/ES, em 2025.

Guilherme Matheus Braun
Tuju (Lurocalis semitorquatus) – espécie que ocorre do México à Argentina. Registrada em Santa Leopoldina/ES, em 2019.

Rafael Gonçalves Silva
Codorna-amarela (Nothura maculosa) – espécie que ocorre nas regiões Norte (no Tocantins), Nordeste, Centro-Oeste, Sudeste e Sul do Brasil, além da Argentina, Uruguai e Paraguai. Registrada em Marataízes/ES, em 2024.

OBSERVANDO E AJUDANDO A FORTALECER O TURISMO
Cada nova espécie de ave encontrada livre na natureza, e também registrada em fotos, vídeos e áudios, representa uma importante contribuição para alavancar o turismo regional. Isso porque o local da descoberta atrai um público específico, que busca experiências únicas de observação de aves, e que valoriza a biodiversidade, a cultura e os recursos desses lugares. Não raro, os “lifers” acontecem em áreas rurais e fora dos grandes centros turísticos, e essa movimentação de observadores em busca do registro da nova espécie encontrada ajuda na economia local, promovendo a geração de renda de atividades como restaurantes, pousadas, guias especializados e outras.
Além disso, o registro e divulgação das aves observadas em plataformas especializadas, como Wikiaves e eBird, aumentam a visibilidade do destino, atraindo novos interessados e legitimando o potencial turístico de uma região, pois a presença da ave é o grande atrativo. Como exemplo, o “Piuí-verdadeiro-do-leste”, encontrado no Sítio Baixa Verde, em Santa Maria de Marechal, no município de Marechal Floriano, em 2025, atraiu dezenas de observadores de várias localidades, durante os cerca de três meses que a espécie permaneceu no local. E há cerca de anos, o “Falcão-de-peito-laranja” é atração em Domingos Martins, com observadores até de outros países visitando a cidade para registrá-lo.
NO SILÊNCIO DA MATA, CADA CANTO REGISTRADO É UM ATO DE RESISTÊNCIA
Registros como esses, realizados por observadores atentos e persistentes, reforçam a importância da atuação contínua da AMOAVES em campo. Cada documentação, seja fotográfica, sonora ou visual, ajuda a consolidar informações essenciais para as estratégias de conservação das espécies.
Em cada amanhecer na mata, em cada espécie adicionada a uma lista pessoal, municipal ou estadual, reafirma-se um compromisso coletivo: conhecer para proteger. E enquanto houver olhos atentos e ouvidos sensíveis aos cantos que ecoam entre serras, restingas e florestas, a avifauna capixaba seguirá encontrando defensores dedicados à sua permanência.
Vejam os quadros completos de lifers e raridades registrados por associados.
QUADRO REGIONAL DE ESPÉCIES
https://amoaves.com.br/wp-content/uploads/2026/03/QUADRO-REGIONAL-13MAR26.pdf
QUADRO DE LIFERS & RARIDADES
https://amoaves.com.br/wp-content/uploads/2026/03/QUADRO-E-LIFERS-E-RARIDADES-13MAR26.pdf
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