ASSOCIADO DA AMOAVES FAZ LIFER ESTADUAL

PRIMEIRO REGISTRO FOTOGRÁFICO DO CASACA-DE-COURO FOI EM SÃO MATEUS

O estado do Espírito Santo acaba de receber um novo habitante alado. A espécie casaca-de-couro (Pseudoseisura cristata) foi registrada pela primeira vez no dia 12 de outubro, em São Mateus, no norte do Estado.

O responsável pelo registro inédito foi o associado Lázaro Ribeiro, que reside com sua família no Sítio da Matinha, naquele município, próximo da divisa com Jaguaré. No local, ele e a família mantêm o plantio de café e pimenta-do-reino, e fazem questão de manter por perto muitas frutíferas como pitangueiras e aceroleiras, e outras árvores que atraem aves pelas flores, como jacarandá-mimoso.

Lázaro conta que sempre gostou das aves. “Desde criança venho observando aves, com um grande interesse em saber qual pássaro era, de qual espécie se tratava, mas na época era difícil saber, pois não tinha os recursos de hoje, como telefone celular e internet para pesquisar, e também não tinha uma câmera para fotografar. Muitas vezes eu perguntava às pessoas que pássaro era aquele, e cada vez mais me sentia motivado a continuar. Cada canto diferente que ouvia, queria saber de que espécie se tratava. Então, em 2023, com celular, câmera e internet em casa, comecei a obter sucesso em registros e pesquisas sobre as espécies de aves.”

Atualmente, Lázaro possui 272 espécies publicadas no Wikiaves, sendo 60 lifers pelo município de Jaguaré e 70 pelo município de São Mateus, entre eles codorna-do-nordeste, pato-de-crista, iraúna-grande, bacurau-chintã, bacurau-de-asa-fina, saracura-do-mangue, andorinhão-de-sobre-cinzento, urubu-rei, bico-chato-de-cabeça-ciza, pica-pau-avermelhado, taperuçu-de-coleira-branca, carretão, jacupemba, chupim-azeviche, baiano, papa-lagarta-de-euler, biguatinga e pararu-azul.

O encontro com o casaca-de-couro aconteceu em uma propriedade particular (fazenda) numa área de várzea, com pastagens e muitas árvores às margens do Rio Cricaré, durante uma pequena passarinhada com a família – a esposa Evanete, a filha Luíza e o sobrinho Leandro. “Ouvi um canto estranho e logo percebi que se tratava de uma espécie de ave diferente das que eu conhecia”, conta Lázaro.

Nessa hora, a emoção de ouvir e ver a ave vocalizando no alto de uma árvore tomou conta não apenas de Lázaro, mas de todos. “Especialmente para mim, foi muito emocionante! Sempre comentava com minha esposa: será que um dia vou ter a chance de fazer um lifer estadual? E a oportunidade veio de uma forma natural, na beira do rio… meu grande desejo foi realizado e junto com minha família, que também pode ver o casaca-de-couro ao vivo, e não apenas pelas minhas fotos!”, conta Lázaro.

“Era um casal com ninho, o que fez com que tomássemos ainda mais cuidado para não assustar as aves e espantá-las do local. Eu não vou parar por aqui, vou seguir observando e fotografando, para identificar novas espécies de aves aqui na região”, finaliza.

A descoberta do casaca-de-couro despertou grande curiosidade entre os birdwatchers, pois achados como esse, fora do eixo mais tradicional da Grande Vitória e municípios vizinhos, ajudam a impulsionar o turismo ornitológico em áreas menos exploradas e traz benefícios reais para as comunidades locais, pois visitantes apaixonados por observação de aves se deslocam para esses pontos para tentar ver espécies incomuns ou pouco documentadas, gerando renda e estimulando a economia.

Um papel importante nisso é desempenhado pela AMOAVES-ES, que promove “passarinhadas”, eventos educativos e parcerias para conservação ambiental. A atuação da AMOAVES também é visível no monitoramento da diversidade local: em Domingos Martins, por exemplo, já foram registradas 410 espécies de aves, segundo dados da associação — um número impressionante que mostra o potencial da região. Em Marechal Floriano, são 324 espécies e em Viana já foram registradas 309 espécies diferentes. Esses números têm a participação fundamental de associados da entidade.

Isso reforça o motivo de tanto interesse turístico: há um enorme leque de aves para observar, e muitas delas podem surgir em locais pouco conhecidos, o que deixa a experiência ainda mais especial para os observadores. Outro fator é o aumento no número de observadores de aves no Estado, o que tem propiciado a descoberta de novas espécies, principalmente em municípios até então pouco explorados e próximos das divisas com outros Estados.

Do ponto de vista do ecoturismo, esse tipo de atividade é muito positivo porque conecta lazer e ciência. Além de atrair turistas, a observação de aves pode contribuir para a conservação, já que observadores muitas vezes ajudam a mapear e monitorar espécies em áreas naturais. Aliado a isso, há também um forte compromisso ético: a AMOAVES tem um código de conduta que prioriza o bem-estar das aves, recomenda distanciamento de ninhos, proíbe perturbação desnecessária e orienta sobre o uso responsável de técnicas como playback (reprodução de sons).

SOBRE O CASACA-DE-COURO

O casaca-de-couro mede cerca de 25 cm de comprimento e apresenta plumagem ruiva uniforme, íris amarela e um longo topete sobre o píleo.

É uma ave passeriforme da família Furnariida e endêmica da Região Nordeste do Brasil, exclusiva da caatinga. Ocorre nos estados de Alagoas, Bahia, Ceará, Maranhão, Minas Gerais, Paraíba, Pernambuco, Piauí, Rio Grande do Norte e Sergipe, e agora com o primeiro registro no Espírito Santo.

A espécie é conhecida também como carrega-madeira-do-sertão, cacuruta e catapirra (interior do Rio Grande do Norte), carrega-madeira-grande (Bahia) e joão-de-moura (Ceará). Nas regiões do sertão e Seridó da Paraíba, esta espécie é também designada de cajaca-de-couro, cajaca-vermelha e casacão.

No processo de reprodução, o grupo todo coopera: vários ajudantes não reprodutores ajudam na construção do ninho, defendem o território e alimentam os filhotes.

Texto: Nilda Miranda

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