AVES CANORAS – UMA SINFONIA NA NATUREZA

Todo pássaro é uma ave, mas nem toda ave é um pássaro. Todo observador de aves conhece essa frase. Mas todo pássaro canta? A resposta é não.

A principal distinção entre ave e passarinho está na classificação científica e em algumas características físicas e comportamentais. O termo ave abrange todas as espécies que compartilham características gerais como penas, bicos, ovos e endotermia (capacidade de gerar e conservar calor internamente para manter uma temperatura corporal estável), como as águias, pinguins, corujas, patos e beija-flores. As aves também apresentam diversos formatos de patas, dependendo do seu estilo de vida.

Já o termo passarinho se refere a um subgrupo específico (ordem Passeriformes) com características, como o canto melodioso e o tipo de pé (anisodáctilo) com três dedos para frente e um para trás, o que os ajuda a segurar nos galhos.

Cerca de metade das espécies de aves do mundo pertence à ordem dos Passeriformes. A maioria tem a capacidade de emitir cantos melódicos, mas nem todos o fazem com frequência ou têm um canto elaborado. Algumas aves que não são passeriformes também podem emitir sons, mas a categoria “canora” é específica dos passeriformes que possuem um aparelho fonador chamado siringe, localizado na base da traqueia, que lhes permite produzir sons complexos e variados, que chamamos de “canto”. Popularmente as espécies canoras mais conhecidas são os canários, pardais, sabiás, bem-te-vis, tico-ticos, pintassilgo, trinca-ferro, coleirinho e sanhaços.

A diferença é a complexidade e a melodia do som produzido pela siringe, o órgão vocal. Aves canoras possuem siringes mais complexas com músculos mais desenvolvidos, permitindo a produção de cantos melodiosos, variados e muitas vezes complexos, enquanto aves não canoras emitem sons mais simples, como as chamadas de alarme ou estalos. Essa habilidade das aves canoras de produzir “música” está ligada a uma complexa estrutura vocal e à capacidade de aprendizado e imitação de sons.

A maioria das aves canoras aprende a cantar ouvindo e imitando os pais e outros indivíduos da sua espécie. Além disso, a vocalização é diferente, como a dos sabiás, que conseguem cantar melodias bastante complexas, lembrando os sons de instrumentos musicais. O sabiá-coleira, por exemplo, tem um dos mais belos cantos, assim como o sabiá-laranjeira e a andorinha-azul. Ouvi-los cantar livres na natureza é como escutar um sinfonia.

As aves canoras são, na maioria, monógamas, vivendo com um único parceiro ao longo de toda época do acasalamento. Normalmente são os machos que cantam, principalmente para atrair as fêmeas.

Entre as espécies de aves que vocalizam, mas só conseguem emitir grunhidos e assobios por não ter a siringe bem desenvolvida, estão a coruja, que é conhecida por sua habilidade em voar silenciosamente e fazer sons muito baixos e o urutau, outra ave noturna com um canto que é considerado apavorante em vez de melódico. E tem também os gaviões, pombos, patos e araras, que são considerados aves não canoras. Tem ainda os periquitos e papagaios, que são capazes de imitar sons e vocalizações humanas, mas não são classificadas como aves canoras.

Na opinião Médico Veterinário Paulo Quadro de Menezes, pesquisador do Projeto Harpia e da Universidade Federal do Espírito Santo, e também associado da AMOAVES, as aves noturnas também cantam, mesmo não sendo aves canoras, e o fazem em horários e contextos diferentes das aves diurnas.

“Por serem ativas à noite, suas vocalizações passam muitas vezes despercebidas por nós. Cada espécie possui seus próprios padrões: os urutaus, por exemplo, costumam vocalizar mais em noites de lua cheia e intensificam o canto durante o período reprodutivo. Essas vocalizações têm várias funções, como a demarcação de território, o reconhecimento e a comunicação entre indivíduos, a atração de parceiros e a manutenção dos vínculos entre casais. Assim como as aves diurnas, as noturnas também “conversam”, apenas escolheram o silêncio da noite como cenário para suas vozes”, afirma Paulo.

POR QUE OS PÁSSAROS CANTAM?

Seja na cidade, nos parques ou nas zonas rurais, o canto das aves é percebido assim que o dia amanhece. Algumas espécies permanecem por longo período cantando, pousadas em galhos, fios, cercas ou mourões, como os sabiás, pássaros-preto, corruíra e bem-te-vis.

“Eu tenho o privilégio de ser acordada todas as manhãs com sinfonias de pássaros como o trinca-ferro; o sabiá-laranjeira, com seu canto sereno trazendo paz; a pomba-amargosa; a corruíra; o risadinha, cujo canto expressa movimento e ação, e também o teque-teque, que é pura adrenalina”, conta a bióloga e associada da Amoaves Ana Lúcia Soares, que tem um sítio na zona rural de Domingos Martins.

Mas o canto das aves tem outros propósitos, além do convite para acasalar ou despertar quem vive longe dos grandes centros urbanos. Cada canto tem um significado específico, dependendo da tonalidade, do ritmo e do volume, de acordo com cada situação apresentada. Pode ser para marcar e defender território, alertar de perigos como a presença de predadores, se comunicar com outros membros da espécie, avisar sobre fontes de alimento e também para manter contato com outros membros do grupo durante o voo.

Algumas espécies têm a habilidade de imitar o canto de outras aves, animais e até objetos, como alarmes de carro ou sons de telefones celulares. O gaturamo-verdadeiro é um habilidoso imitador de aves, conseguindo imitar o canto de 10 a 16 espécies diferentes.

ALGUNS “CANTORES” FAMOSOS

Uirapuru: famoso no folclore do Norte do Brasil, é considerado dono de um dos cantos mais belos da natureza — tão encantador que faz as outras aves silenciarem para ouvir. Seu som delicado lembra um flautim e inspira poetas e músicos.

Canário-da-terra: pequeno e vibrante, é conhecido pelo canto forte e cheio de energia, marcando presença em quintais e áreas rurais de todo o país.

Trinca-ferro (ou Pixarro): de canto potente e melodioso, é uma das aves mais admiradas. Habita principalmente o cerrado e a Mata Atlântica.

Curió: um dos pássaros mais apreciados do Brasil, tanto pela beleza da plumagem preta com tons avermelhados quanto pelo canto harmonioso.

Coleirinho: popular em várias regiões, encanta com seu canto suave e agradável, sendo facilmente reconhecido por sua “coleira” branca ao redor do pescoço.

Bicudo: conhecido por seu canto rico em variações e timbre que lembra uma flauta.

Bem-te-vi: famoso pelo som característico que repete seu nome, pode ser considerado uma ave canora dependendo da variação de seu canto, sempre cheio de personalidade.

Azulão: de plumagem azul intensa e canto melodioso, é uma das aves mais admiradas do cerrado e da Mata Atlântica.

Pintassilgo: pequeno e colorido, possui um canto doce e harmonioso. É encontrado em diversas regiões do país e costuma viver em bandos.

Sanhaço: representa um grupo de espécies alegres e coloridas, conhecidas por seus cantos suaves e presença constante nos jardins. No Espírito Santo são encontrados o  sanhaço-do-coqueiro, sanhaço-frade, sanhaço-cinzento, sanhaço-de-fogo, sanhaço-de-encontro-azul, sanhaço-de-encontro-amarelo, sanhaço-de-coleira e sanhaço-pardo.

Sabiá: os sabiás são sinônimo de canto melodioso e poético, sendo considerados símbolos da natureza brasileira. O sabiá-laranjeira é o pássaro símbolo do Brasil, instituído por decreto presidencial em 2002. Ele foi escolhido por ser encontrado em grande parte do território nacional e por ser presença constante na cultura e na literatura brasileira, como na poesia “Canção do Exílio” de Gonçalves Dias. 

Sabiá-laranjeira – autor: José Borges

PÁSSAROS IMITADORES PELO MUNDO

Ave-lira: nativa da Austrália, é conhecida por imitar com perfeição uma vasta gama de sons, incluindo o canto de outros pássaros e sons artificiais como motores e alarmes. Os machos usam essa habilidade para atrair fêmeas durante o acasalamento.

Japiim: encontrado na América do Sul, incluindo a Amazônia, ele imita sons de pássaros e animais, como os macacos.

Mainá-da-montanha: originário da Ásia, tem uma grande capacidade de imitação vocal, incluindo sons de outros pássaros e até a voz humana.

Periquito-monge: nativo da América Latina, esta ave vive em bandos e possui códigos vocais para se comunicar sobre comida e perigos, além de imitar outros sons de pássaros.

Papagaio-cinzento-africano: espécie mundialmente famosa por sua capacidade de imitar a voz humana com grande precisão, aprendendo centenas de palavras.

Bowerbird (ave-de-jardim): encontrada principalmente na Austrália e na Nova Guiné, o macho desta espécie imita sons da floresta, incluindo conversas humanas, para atrair fêmeas.

AVES RARAS E AMEAÇADAS DE EXTINÇÃO

Os municípios de atuação da AMOAVES – Domingos Martins, Marechal Floriano e Viana – possuem paisagens belíssimas e ainda preservam remanescentes da Mata Atlântica que abrigam uma diversidade expressiva de espécies da fauna e da flora.

“A avifauna desses municípios vem se destacando no mundo por sua riqueza de espécies e também por suas especificidades, endemismo, ameaças e beleza. As aves atraem normalmente os olhares dos amantes da natureza pela beleza de suas plumagens ou pela melodia do seu canto, como nesses lugares, que abrigam espécies que esbanjam encantamentos”, afirma Ana Lúcia Soares.

A destruição dos habitats naturais e o tráfico são as principais ameaças de extinção das aves. Devido à beleza e ao canto de algumas espécies, muitas são capturadas e mantidas em cativeiro ou comercializadas ilegalmente para outros estados e até para outros países. Outro fator é o uso de pesticidas e poluentes nas plantações, que pode contaminar as fontes de alimentos e de água, colocando em risco as aves e animais silvestres e reduzindo a taxa de reprodução dos mesmos.

De acordo com Ana Lúcia, “a principal atividade desses municípios é a agricultura, o que pode comprometer esse cenário atual. Mas os agricultores e a comunidade podem ser os principais atores no trabalho de preservação. Eles possuem conhecimentos (das aves) adquiridos com suas experiências vivenciadas ao longo de sua vida, que podem contribuir significativamente com trabalhos de pesquisas e com a preservação”.

De acordo com o site Wikiaves, no Espírito Santo vivem 681 espécies de aves, algumas delas em risco de extinção, como a Saíra-apunhalada (Nemosia rourei), uma das espécies mais raras do planeta, hoje com população restrita aos municípios capixabas de Vargem Alta, Santa Teresa e Castelo. Além dela, também seguem ameaçadas de extinção a jacutinga, o mutum-de-bico-vermelho e o surucuá-de-coleira, hoje restrito à Reserva Natural Vale, em Linhares. Além do bicudo-verdadeiro, considerado extinto na natureza capixaba desde 2022.

Mas uma espécie rara, com registros ocasionais na região sudeste, parece ter escolhido o município de Domingos Martins para se abrigar e viver: o falcão-de-peito-laranja. Desde o mês de abril/25, ele se apresenta no alto de uma torre de celular, elevando a cidade ao posto de “maior número de registros da espécie no Brasil”, de acordo com o presidente da AMOAVES, Roberto de Oliveira Silva. Observadores de aves de todo o Espírito Santo, de vários estados brasileiros e até mesmo do exterior viajaram para ver e fotografar a dupla que continua morando por lá.

Falcão-de-peito-laranja – autor: Guilherme Busato Ewald

Além do falcão-de-peito-laranja, outra espécie rara, com poucos registros na região sudeste do Brasil é o “fruxu-baiano”, que também escolheu o município de Domingos Martins para viver.

Fruxu-baiano – autor: Rosfutsal

No Espírito Santo, o comércio, criação, posse e a manutenção de aves silvestres em cativeiro sem a devida autorização do Iema são crimes, sujeitos às penalidades previstas na Lei Federal Nº 9.605/1998 e na Lei Estadual Complementar nº 936/2019. Não raro, muitas aves são apreendidas em operações contra a atividade ilegal, entre elas o trinca-ferro (Saltator similis), classificado como vulnerável (VU), o que indica um alto risco de extinção a médio prazo. A posse dessa ave sem autorização pode acarretar multas de até R$ 16.000,00.

A AMOAVES atua permanentemente junto às autoridades e comunidades, buscando contribuir para a preservação do meio ambiente, mediante ações como palestras, exposições fotográficas, projetos educativos nas escolas, participações em feiras e eventos locais, produção de calendário anual com fotos dos associados, mantendo importantes parcerias para continuar promovendo esse importante trabalho de conscientização e educação ambiental.

Texto: Nilda Miranda

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