XII PASSARINHADA OFICIAL DA AMOAVES

EM BUSCA DA CODORNA-DO-NORDESTE: UMA AVENTURA EM SÃO MATEUS

SEM SOL NÃO TEM SOMBRA

Durante toda a semana que antecedeu a passarinhada em São Mateus e Jaguaré, no norte capixaba, o grupo da AMOAVES-ES esteve atento à previsão do tempo, que mostrava possibilidade de chuvas. Mas a expectativa e o desejo de ver com os próprios olhos e talvez conseguir uma foto da rara codorna-do-nordeste eram mais fortes, e assim o grupo viajou na sexta-feira, 24 de outubro, para poder estar no local de observação bem cedo, no sábado. A missão? Encontrar a discreta codorna-do-nordeste (Nothura minor).

Contrariando os mais otimistas, amanheceu chovendo. Chuva fina, boa para a terra e para as plantações. E, munidos de guarda-chuvas, câmeras fotográficas, baterias carregadas e muita expectativa, o grupo seguiu para o Sítio da Matinha, propriedade do associado Lázaro Ribeiro. Ainda na estrada, em Jaguaré, uma grande lagoa separada pela rodovia fez o grupo desacelerar os carros. E pousados em pequenos tocos dentro da lagoa, vários gaviões-caramujeiros e outras espécies de aves aproveitavam a palidez da manhã para se alimentar. E, como passarinheiro não resiste a um gavião, todos desceram dos carros para fazer fotos antes de seguir viagem.

Já no sítio do Lázaro, o grupo foi recebido com um delicioso café da manhã, gentilmente preparado por sua esposa Nete e pela filha Malu. E, entre um gole de café e um pedaço de bolo, a maioria dos observadores fez o primeiro lifer do dia: chupim-azeviche. Um pequeno bando chegou ao comedouro e, mesmo com a chuva fina que caía, eles permaneceram por vários minutos, permitindo até mais um lindo vídeo de um deles cantando, feito pela Leidemara Busato, especialista nessa arte.

Ainda sem sair da varanda, os observadores aproveitavam para registrar bacurau-de-asa-fina voando; carão pousado no alto de uma árvore; cardeal-do-nordeste e tico-tico-rei-cinza se alimentando; rolinhas-picuí empoleiradas no fio; um bando de Sovi voando muito perto… uma diversidade de espécies que motivou ainda mais o grupo a enfrentar a chuva e caminhar até o local onde se encontram as codornas-do-nordeste.

Enquanto caminhavam, entre o canto dos sabiás e coleiros e o farfalhar das folhas, a passarinhada prometia muito mais do que simples avistamentos: era um mergulho na natureza viva e nas histórias que ela conta pelas batidas de asas das aves. Cada encontro é um momento de encantamento.

Já no local, a chuva fina persistia, obrigando o grupo a abrir e fechar os guarda-chuvas a cada breve estiada. Embrenhadas no capim, as codornas-do-nordeste cantavam e o grupo se mantinha esperançoso, avançando lentamente pela trilha, enquanto fotografava um coleirinho, uma rolinha-de-asa-canela se alimentando no chão, entre outras aves mais comuns.

Mas, embora ela cantasse, parecia que ia permanecer escondida, até que… “- gente, olha ela lá, a codorna!”, avisaram Ana Peres e Leodério Velten. Lá onde? Sim, lá estava ela, quase camuflada com o chão arenoso, exibindo suas penas em tons de marrom e bege que pareciam ter sido pintadas pela própria terra do local, caminhando rapidamente entre os pequenos pés de café, para logo se esconder de novo no meio do capim. Foi o tempo suficiente para quase todos conseguirem alguma foto daquele pequeno tesouro alado. E, para quem não conseguiu, ela voltou. Caminhou no chão limpo por alguns breves segundos e se escondeu novamente.

O silêncio se quebrou em exclamações e sorrisos. O momento foi breve, mas inesquecível. Mais uma vez, a natureza lembrava aos aventureiros o valor da paciência e da observação atenta. Missão cumprida!

Ainda sob o efeito da adrenalina e da emoção de ver a codorna-do-nordeste, o grupo voltou para as trilhas, fazendo alguns registros de espécies mais conhecidas de todos. E com a alma e os passos leves, lentamente o grupo retornou para a casa do colega Lázaro, para degustar de um almoço delicioso, com direito a galinha-caipira, polenta frita e outras delícias.

UM OLHO NO GATO E OUTRO NO PEIXE

A expressão popular descreve bem o comportamento dos observadores de aves. Sempre vigilantes, mesmo quando estão concentrados em uma atividade, mas atentos a algo inesperado que possa acontecer. E assim decorreu o almoço, entre conversas, risadas, elogios à comida deliciosa, mas de olhos atentos para as aves que passavam voando, que pousavam nas árvores próximas ou que cantavam ao longe.

Ainda com a chuva que ia e vinha, após o almoço, o grupo tomou outro caminho, por entre as plantações de pimenta-do-reino e de café, chegando até o local onde encontrariam o papa-formiga-pardo, também conhecido como formigueiro-pardo, espécie difícil de encontrar por gostar de viver em meio à vegetação densa. Mas lá estava um casal, sempre em movimento de um lado a outro da estrada e, também por entre as folhagens. Entretanto, com paciência, todos conseguiram ver sua beleza e registrá-lo em fotos. E ali perto, também estavam o picapauzinho-barrado, choró-boi e outras aves conhecidas.

Sem pressa, o grupo percorreu um bom caminho até chegar novamente ao cafezal, onde uma mariquita cantava e se movia alegremente, permitindo a todos fazer lindas fotos e, claro, mais um belo vídeo da Leidemara. E no alto de uma árvore, um ninho de sovi chamou a atenção do grupo. Os pais se revezavam nos cuidados. Mais à frente, a coruja-buraqueira fez poses para o grupo, sem nenhuma pressa.

Finalizando a caminhada e de volta à varanda, um café quentinho aguardava os intrépidos passarinheiros. E como disse antes, com uma xícara de café na mão e um olho na mata, Leidemara fotografou o que pensou ser uma aracuã-de-barriga-branca, mas de fato era um lifer para quase todo o grupo: pomba-trocal. Ave linda, também conhecida como pomba-carijó, pomba-divina e pomba-pedrês. Não podia ser melhor o encerramento desse dia!

DOMINGO DE SOL, SOMBRA E ÁGUA FRESCA. E SURPRESAS

Acordar e ver o céu limpo, tingido por suaves tons de rosa e azul, foi um alívio e um convite à esperança. A expectativa de reencontrar a codorna-do-nordeste era alta e o ânimo do grupo crescia. Com o sol do amanhecer, tudo parecia despertar: à beira da estrada, a vegetação cintilava com o orvalho, insetos zumbiam discretos e as aves, em voos apressados ou cantos vibrantes, pareciam celebrar o novo dia juntamente com o grupo.

E, novamente na estrada, foi inevitável parar na lagoa para novas fotos dos gaviões-caramujeiros, que agora se revelavam ainda mais bonitos, contrastando a plumagem com o verde da vegetação e o céu refletido na água. Agitados e muitas vezes provocando um ao outro, essas ações permitiram novas fotos ainda mais bonitas do que na véspera.

Mas uma pequena ave, discretamente pousada em um galho, chamou a atenção. E, ao olhar mais de perto, veio a surpresa: lavadeira-de-cara-branca, espécie com poucos registros no estado do Espírito Santo. E começa o baile entre observadores e ave, de um lado a outro da estrada, de uma margem à outra da lagoa, até que todos conseguissem registrá-la. Lifer pessoal para quase todos e lifer para o município de Jaguaré (Lécio Narciso). Que momento!

Mas outra surpresa ainda aguardava o grupo, que havia combinado de retornar ao local da codorna-do-nordeste, mas não foi preciso. Com o olhar atento de um gavião, Roberto, presidente da AMOAVES que seguia à frente do grupo, avistou, em uma curva da estrada, a bela codorna, tranquilamente caçando pequenos insetos ou frutinhas. E assim permaneceu por tempo suficiente para que quase todos pudessem descer dos carros e conseguir novos registros. De novo, missão cumprida!

Após o café da manhã na casa do Lázaro, o grupo seguiu para outra lagoa, também no município de Jaguaré. O sol lembrava que era necessário o protetor solar e muita água, e os insetos avisavam que precisava usar repelentes, itens obrigatórios de todo passarinheiro, além de perneiras e chapéu.

No local dava para perceber que a lagoa já foi mais grandiosa. Rodeada de vegetação baixa e flores silvestres, o lugar mostra seus encantos assim que se chega, e provavelmente já recebeu e ainda recebe muito mais espécies do que as que lá estavam, pois a natureza é mutável. Mesmo assim, várias aves chamaram a atenção, como o barulhento, a marreca-cabocla, um casal de freirinha com ninho, uma anhuma, o pernilongo-de-costas-brancas, saci, garibaldi e outros. Sem sombra de grandes árvores no local, o grupo decidiu que era hora de retornar, pois a volta para casa seria outra longa viagem.

CRIANÇA APRENDE OBSERVANDO

Quando se fala em observação de aves, ainda é comum imaginar um grupo de adultos munidos de binóculos e câmeras, explorando trilhas com paciência e atenção. No entanto, cada vez mais crianças estão se encantando com essa atividade, que une curiosidade, contato com a natureza e aprendizado.

Mas um fator que faz toda a diferença é quando esse interesse é compartilhado em família. No grupo são exemplos disso o Leodério Velten com o neto João; a Leimarara Busato com o filho Guilherme; o Jorge Vaccari com o filho Gabriel; e desta vez quem encantou o grupo, foi o Arthur, filho do Lécio Narciso. Criança curiosa, alegre, divertida, respeitosa e incansável. E também bom fotógrafo! Ele encantou o grupo com seu carisma e curiosidade sobre todas as aves, e também com seu conhecimento.

Ficarão registrados para sempre nos corações a pizza na casa amarela e o registro da anhuma ainda em voo, além de outros momentos inesquecíveis.

Sabemos que o exemplo dos adultos, especialmente dos familiares, desperta nas crianças o respeito pelo meio ambiente e o sentimento de pertencimento ao mundo natural. Observar aves é, para elas, muito mais do que um passatempo: é um caminho para descobrir a natureza, cultivar a empatia ambiental e se tornar guardiãs do futuro do planeta.

No final desta passarinhada, foram observadas 57 espécies em Jaguaré e 91 espécies em São Mateus, totalizando 148 espécies.

Vejam alguns registros dos dois dias de atividades:

Autor: Adalberto Ramaldes

Autora: Nilda Miranda.

Autora: Ana S. S. Peres.

Autor: Lázaro Ribeiro.

Autora: Leidemara Busato Ewald.

Autora: Néia Schumacher Gonçalves.

Autor: Leodério Velten.

Autor: Rosfutsal.

1 Comentário

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  1. Que espetáculo! Um espetáculo de passarinhada e um espetáculo de texto. A Nilda consegue com o seu texto remeter a gente àqueles momentos que vivemos intensamente. E tenho a certeza de que o leitor que não participou do evento consiga viver toda essa emoção que vivemos e que a Nilda relata com excelência. Parabéns Nilda, parabéns AMOAVES.

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