XI PASSARINHADA OFICIAL DA AMOAVES

GRANDES ENCONTROS COM RARIDADES

O DESTINO

Viajar não é só partir e chegar ao destino escolhido, é curtir cada momento do caminho. Através dos vidros dos carros, é possível observar a vida que flui do lado de fora: ipês floridos na beira da estrada, aves empoleiradas, lagoas, gente que vai, gente que vem, vidas que se cruzam, memórias sendo criadas. E se o motorista se distrai com tanta beleza, a tecnologia ajuda a apontar a direção certa. Os assistentes virtuais dos veículos chegam a ser engraçados, com versões em diferentes idiomas, como o português de Portugal, cuja pronúncia é bastante peculiar, deixando a viagem mais divertida. Todo este cenário contribui para encurtar as distâncias, fazendo com que o tempo da viagem não seja cansativo, pelo contrário, seja um prazer.

O destino da XI Passarinhada Oficial da AMOAVES foi a Reserva Natural Vale, no sábado, e a Reserva Biológica de Sooretama, no domingo, respectivamente nos municípios de Linhares e Sooterama/Linhares.

A Reserva Natural Vale é um espaço oficial de conservação e pesquisa científica, que abriga mais de 400 espécies de aves. Já a Reserva Biológica de Sooretama é uma Unidade de Conservação Federal, gerida pelo Instituto Chico Mendes, que abriga mais de 240 espécies de aves, muitas delas ameaçadas de extinção e protegidas na Reserva, assim como acontece na Reserva da Vale. Por isso mesmo, a grande procura do local por observadores de aves, na expectativa de encontrar algumas espécies raras presentes nestes locais. E já posso adiantar que o grupo de observadores da AMOAVES foi agraciado com espécies como Surucuá-de-coleira, choquinha-chumbo, rabo-amarelo, chirito, cabeça-encarnada, tiriba-grande entre outras raridades.

PRIMEIRO DIA: EM BUSCA DO SURUCUÁ-DE-COLEIRA

Às 5h da manhã, todos já estavam de pé, alguns já degustando o fabuloso café da manhã preparado pela equipe do Hotel Eliz. Nas conversas era possível identificar o desejo de todos: encontrar o Surucuá-de-coleira, ave rara, cujos registros no Estado do Espírito Santo foram, quase todos, feitos na Reserva Natural Vale.

Já na Reserva e devidamente orientados e protegidos com perneiras e repelentes contra insetos, aracnídeos e outras criaturas prováveis de serem encontradas, os primeiros registros foram efetuados logo na entrada, entre eles mariquita, papagaio-moleiro, tiriba-grande, tiriba-de-orelha-branca e urubuzinho.

Depois, seguindo por uma das trilhas, um casal de mutum-de-bico-vermelho permitiu ser fotografado antes de se esconder na vegetação. O tempo no meio da mata passa diferente. Quando não tem passarinho pousado, tem outras coisas para observar, como árvores gigantes, flores, borboletas, répteis e, às vezes, você dá sorte de encontrar um mamífero, como o veado-mateiro, que de longe, no meio da trilha, observava o grupo. Animal belo e arisco, mas deu tempo de registrá-lo.

E assim, entre uma parada e outra pelo caminho, o grupo chegou a um dos pontos de observação do rabo-branco-mirim, espécie restrita aos estados do Espírito Santo, Bahia, Rio de Janeiro e leste de Minas Gerais. No local, parecia que tinha festa, de tantos indivíduos vocalizando ao mesmo tempo, em vários pontos diferentes. Difícil mesmo foi conseguir uma boa foto, dado o tamanho deles (apenas 9cm) e a inquietude, sempre se movimentando. Mas no final, todos conseguiram bons registros, que podem ser conferidos no final desta matéria.

O período da manhã ainda reservava um encontro com outra espécie linda, o urutau-grande, também conhecido como mãe-da-lua-gigante, mãe-da-lua, urutau-gigante ou simplesmente urutau. É a maior espécie da família e mede entre 45 e 57 centímetros de comprimento. Na Reserva Natural Vale, ela habita o mesmo local, a mesma árvore, sendo fácil localizá-la e fotografá-la. E nada do surucuá-de-coleira…

Depois da pausa para o almoço e com a esperança renovada, o grupo partiu novamente para as trilhas em busca de outras espécies, como o cabeça-branca e o cabeça-encarnada, que proporcionaram boas fotos, mesmo pousados entre os galhos das árvores. As cores contrastantes do cabeça-encarnada com o verde da mata deixaram todos emocionados. No Espírito Santo, esta espécie é também conhecida como maria-lenço. Faz sentido, pois ela tem a plumagem do corpo na cor preta e a cabeça vermelha, semelhante a um lenço amarrado.

Apesar de ter ouvido sua vocalização, o surucuá-de-coleira ainda permanecia escondido, mesmo após tentativas de avistá-lo em dois pontos distintos de observação. E por sugestão do presidente da AMOAVES, Roberto, o grupo seguiu para outro local, onde a espécie já havia sido fotografada antes. Uma última tentativa. E não demorou nada, assim que o grupo desceu dos carros, ele veio! Chegou com seu voo característico, rápido e curto. Pousou a média altura, como se esperasse a visita dos passarinheiros. Cantou, fez pose, voou, voltou, ficou um bom tempo no local, permitindo ser admirado e fotografado. Missão cumprida! Felicidade geral!

Depois desse grande encontro, era hora de relaxar. Será? A convite do guia Brener Fabres o grupo seguiu para a Torre de Observação de Avifauna, no meio da mata, com capacidade para 15 pessoas e com cerca de 100 degraus. Todos estavam animados para subir e observar, lá do alto, tanto a paisagem quanto as possíveis aves. Não foi fácil, mas ninguém desistiu. O sol estava quase se pondo, e a esta altura nem eram as aves que mais importavam, era o feito, ter chegado lá no alto. Era o vento no rosto. Era o balanço da torre – sim, balança muito! Era a satisfação de todos pelo dia, pelos registros, pela amizade. Um gran finale para aquele sábado!

SEGUNDO DIA: QUE PASSARINHO É ESSE?

É comum colocar o despertador do celular para avisar a hora de acordar, mas ao que parece todos acordaram antes da hora marcada. E às 5h da manhã o café já estava servido. Mesa farta com bolos, pães, sucos… tudo fresco e saboroso. E, como no dia anterior, um kit foi separado para um lanche no meio da mata. Tudo pronto para a viagem, o destino era a Reserva Biológica de Sooretama, em Sooretama, município vizinho de Linhares.

O primeiro local de observação foi próximo à sede administrativa da Reserva. As trilhas são muito limpas e bem cuidadas, com árvores imensas e lindas. A luz do sol conseguia penetrar por entre os galhos e folhas, criando desenhos pelo caminho. E nesse ambiente tranquilo, o silêncio era a principal ferramenta para se encontrar as espécies pretendidas: choquinha-chumbo, Chirito e Rabo-amarelo. Aves raras e de difícil observação. O cuidado para não interferir no seu habitat foi redobrado, sem conversas, sem movimentos bruscos, sem trocar de lugar, apenas aguardar. E assim, com respeito às orientações e todo o cuidado, as três espécies corresponderam, mas não facilitaram. A maior parte do tempo ficaram ocultas na brenha, permitindo poucos registros, muitos parciais, e alguns perfeitos pela sorte de estar no lugar certo e no segundo exato. Mas só o fato de poder ver e ouvir seus cantos já valeu a viagem. Momentos únicos que permanecerão na memória de cada um.

Após esse grande momento, o grupo seguiu pela estrada para encontrar outras espécies. Algumas só permitiram ouvi-las, como, por exemplo, o formigueiro-de-cauda-ruiva, ave ameaçada de extinção e extremamente arisca. Apesar de ter vocalizado à beira da estrada, ela permaneceu próxima do chão e ninguém conseguiu fotografá-la, nem mesmo vê-la, exceto o guia Brener. O mesmo aconteceu com o jaó-do-sul, também ameaçado de extinção e encontrado somente nos estados do Espírito Santo, Rio de Janeiro, São Paulo, Paraná, Santa Catarina e Rio Grande do Sul. Cantou, todo mundo ouviu, mas ninguém viu. Mas saber que estas aves habitam esses locais e estão protegidas já é uma satisfação.

Sem conseguir fotografar as aves mais raras, outras espécies alegraram os passarinheiros, como Anambé-branco-de-bochecha-parda, garrinchão-pai-avô, cambada-de-chaves entre outras.

Ao todo foram observadas 69 espécies na Reserva Natural Vale e 37 espécies na Reserva Biológica de Sooretama, totalizando 106 espécies.

O MENINO DA PORTEIRA

A brincadeira já virou tradição no grupo AMOAVES. Toda vez que se encontra uma porteira no caminho, alguém do primeiro carro desce para abrir e dar passagem aos demais. Os integrantes dos carros que passam agradecem com uma moeda. Desta vez, o “menino da porteira” foi o guia Brener Fabres, que também se divertiu com a brincadeira.

Em junho deste ano, Brener sofreu um grave acidente de moto, que por pouco não lhe tirou a vida. Agora recuperado, voltou a praticar a atividade que escolheu para a vida: guiar observadores de aves e ajudar a encontrar essas relíquias da natureza. Aves muitas vezes tão raras e arredias que um pisar nas folhas secas ou o balançar de um galho pode assustá-las e fazê-las não só voar naquele momento, mas escolher outro local para viver, longe dali. O trabalho do guia não é só levar o observador até o local de observação de uma determinada ave, mas entender seu comportamento e orientar os observadores para a preservação das espécies. O Brener é um grande conhecedor!

Vejam alguns registros dos dois dias:

Autor: Leodério Velten.

Autora: Nilda Miranda.

Autor: Wilson Oliveira.

Autor: Gabriel Pelição Vaccari.

Autor: Jorge Vaccari.

Autora: Leidemara Busato Ewald.

Autpra: Néia Schumacher Gonçalves.

Autor: Roberto de Oliveira Silva – Rosfutsal.

10 Comentários

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  1. Que maravilha de relato sobre essa passarinhada! Espécies simplesmente fantásticas! Muitas são um sonho para grande parte dos passarinheiros! Demonstra a importância de áreas preservadas para as aves! Parabéns à todos os envolvidos, gestores das reservas, guias e todo pessoal da Amoaves, em especial aos amigos Roberto e Leidemara, os quais tive o prazer de conhecer recentemente.
    Muito sucesso pra todos!

  2. A passarinhada em Linhares e Sooretama foi um show da natureza! 🐦✨ Nada como observar aves livres, aprender e se conectar com o verde ao nosso redor. Que delícia de final de semana! 💚 Viva Amoaves!

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