IX PASSARINHADA OFICIAL/2025 – AMOAVES

UMA PASSARINHADA PARA FICAR NA HISTÓRIA

Para chegar ao local da IX Passarinhada Oficial da AMOAVES, programada para os dias 30 e 31 de agosto, primeiro foi necessário percorrer dezenas de quilômetros, apreciando paisagens e vendo pássaros pousados em árvores, arbustos e cercas na beira da entrada. E também poder apreciar o imponente Pico do Itabira, com seus 700 metros de altitude – o nome vem do tupi e significa “pedra empinada” ou “pedra brilhante”. Estamos falando da “capital secreta do mundo”, Cachoeiro de Itapemirim. Conta a lenda que o apelido foi dado pelo poeta Vinícius de Moraes, surpreso com a quantidade de personalidades famosas oriundas da cidade, como Roberto Carlos, Sergio Sampaio, Luz Del Fuego, Carlos Imperial, o poeta Rubem Braga, entre outros.

Localizada no sul do estado do Espírito Santo, Cachoeiro é conhecida também como a “Capital do Mármore e Granito”, liderando a produção nacional e como maior polo de beneficiamento de rochas ornamentais do país. A cidade também abriga a fábrica de pios de pássaros, Maurílio Coelho, com mais de 100 anos de existência.

No sábado de manhã, antes do sol nascer, o grupo partiu para as terras da Comunidade Quilombola Monte Alegre, localizada a 37 quilômetros do centro do município. Incrustrada e protegida pela FLONA – Floresta Nacional de Pacotuba, a comunidade quilombola foi fundada na segunda metade do século XIX pelo lendário Negro Adão e serviu de abrigo a escravizados da então fazenda Boa Esperança (atual RPPN Cafundó) e de fazendas vizinhas como Barra do Mutum, São João da Mata e Alegre. O local conta com trilhas nas quais podem ser observadas diversas espécies de aves, borboletas, flores silvestres, plantas com propriedades medicinais, entre outros atrativos ecológicos.

Nesse cenário, e guiados pelo experiente Filipe Ventura (morador da comunidade e vindo de uma das famílias tradicionais da comunidade), o grupo cruzou o Rio Itapemirim com a expectativa de avistar algumas espécies da extensa lista de aves da região. As primeiras foram, entre outras, a maitaca-verde, guaxe, chauá, bico-chato-amarelo, um casal de choquinha-de-flanco-branco e um trio de marreca-caucau que deu um show de recepção.

Algumas espécies de aves preferem viver escondidas, o que torna um desafio especial encontrá-las e, mais ainda, fotografá-las. Assim foi com o “Barulhento”, ave não ameaçada de extinção que vive em meio à vegetação baixa. Para registrar o pequenino pássaro, o grupo se aventurou em meio aos gados em um grande pasto à beira da estrada. E a chuva prevista para aquela manhã se confirmou fina e fria, forçando àqueles mais prevenidos a sacar suas sombrinhas. E assim, munidos de câmeras, sombrinhas e coragem, o grupo seguiu pasto adentro até o local de observação.

O Barulhento canta muito e se move na mesma proporção. A maioria conseguiu fotos de cabeça, cauda, asas, mas ele inteiro foi coisa raríssima. Mas nem tudo estava perdido! Um Papa-formiga-vermelho resolveu se juntar ao Barulhento, forçando o grupo a uma nova dança. Passarinheiro para um lado, passarinho para o outro. E depois de muitas tentativas, todos conseguiram algum registro. Hora de comemorar, retirar os carrapichos das roupas e rir da situação hilariante e inesquecível.

O roteiro para o período da tarde também prometia e entregou muitas espécies, e o que mais encantou o grupo foi uma dupla de João-bobo, cujo nome popular provavelmente se dá pelo fato dessa espécie ficar parada, imóvel, mesmo quando alguém se aproxima. E no mesmo local, no dia seguinte, a dupla estava lá fazendo poses e cantando.

Contrariando a expectativa de chuvas para o domingo, a previsão do tempo foi mais assertiva e o sol predominou e as aves cantaram alegres, assim como alegres ficaram os passarinheiros, pois o difícil Papa-formiga-vermelho agora também cantava e dançava à beira da estrada, desta vez um casal, permitindo fotos melhores para todos. E no mesmo local, misturados e sem pressa, brincavam chupins, garibaldes, joões-de-barro, canários-da-terra, bem-te-vis e outros. Mas um encontro inesperado estava para acontecer.

UMA MESTRA NO MEIO DO CAMINHO

Com passos firmes, sorriso no rosto e uma enxada nos ombros a personagem principal da Comunidade Quilombola de Monte Alegre surgiu na estrada de chão: a Mestra de Caxambu Maria Laurinda Adão, bisneta do ex-escravo Negro Adão e considerada uma das mulheres vivas mais importante para a preservação das raízes e tradições do povo afro brasileiro.

O guia Filipe (morador da comunidade e vindo de uma das famílias mais tradicionais) cuidou de recepcioná-la com um abraço carinhoso e apresentá-la ao grupo. E logo ela se tornou o alvo principal das câmeras de todos. Como uma celebridade (e ela é, pois, viaja por todo o Brasil difundindo a cultura da comunidade como líder quilombola engajada com projetos sociais e militante em vários movimentos sociais), dona Maria Laurinda posou para muitas fotos com os passarinheiros e em pouco tempo fez relatos de sua vida e do seu bisavô, o Negro Adão, fundador da comunidade.

Foi emocionante ouvir dela algumas histórias perpetuadas oralmente por décadas  que carregam o conhecimento do seu povo. Uma alegria conhecê-la e ouvir um pouco de sua história pessoal, ver a casa onde mora e poder aplaudir uma mulher com 82 anos tão cheia de vida e disposição. Memorável! Momentos que a atividade de observar aves promove.

Maria Laurinda Adão: Mestra do Grupo de Caxambu, parteira, coveira, líder comunitária, mãe de santo, ativista e uma das maiores representantes da identidade e da cultura negra no Espírito Santo e no Brasil. O melhor lifer da passarinhada!

UM GUIA QUE FOI GUIADO

Os sobrenomes que prevalecem na população local da Comunidade Quilombola de Monte Alegre, desde a fundação, são Adão, Ventura e Veridiano.

Seguindo pelos caminhos que explorava quando jovem, o guia Filipe Ventura encontrou na observação de aves a oportunidade de trabalho junto ao que lhe proporcionava mais prazer. A atividade conquistou Filipe há muitos anos, influenciado pelo pai, por meio de caminhadas pelas matas da região aproximava o menino aos animais da floresta. E como grande conhecedor das matas e também das aves, logo seu trabalho foi notado e observadores de vários cantos do país passaram a procurá-lo em busca de espécies só encontradas na região.

E foi também observando os passos do primo Filipe que o jovem Maicky Ventura se interessou pela atividade de observar aves e já demonstra seu conhecimento dos locais e espécies da região, acompanhando e ajudando o grupo no sábado com muita gentileza e atenção.

AVES OBSERVADAS

Durante os dois dias, foram observadas 92 espécies diferentes. Confira alguns registros.

Autor: Adalberto Ramaldes

Autor: Wilson Oliveira

Autora: Nilda Miranda

Autora: Néia Schumacher Gonçalves

Autor: Leodério Velten

Autora: Leidemara Busato Ewald

Autor: Roberto de Oliveira Silva – Rosfutsal

Autor: Gabriel Pelição Vaccari (11 anos)

Autor: Jorge Vaccari

7 Comentários

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  1. Confesso ter sido essa, a Passarinhada mais emocionante das que participei. O relato da amiga Nilda Miranda revela essa carga de emoção que envolveu a todo(a)s.
    Cachoeiro de Itapemirim, com seus encantos e segredos nos revela a pujança de seu povo e nos ”embriaga” com conhecimento da identidade plural deste Município, na Arte, no Empreendedorismo, no Paisagismo, na Hospitalidade… enfim nos brinda com essa oportunidade de conhecer a Maria Laurinda Adão, quilombola, descendente do fundador da Comunidade Quilombola Monte Alegre – Mestre Adão.
    Nilda relatou o encontro com Maria Laurinda como um Lifer. E foi mesmo, pois a encontramos durante Passarinhada, retornando para casa. Voltava do trabalho de Coveira que, dentre outras atividades exercidas, relata com simplicidade e respeito.
    Uma reflexão importante desse trágico episódio da Humanidade, que não podemos esquecer e do qual não há Perdão – a ”Escravidão”.
    Mestre Adão deve ter sido capturado na África, bem jovem, deixando para trás sua família, seus sonhos. Tratado como Animal selvagem em Navio Negreiro, vendido no Porto de Vitória ou Rio de Janeiro como indivíduo despersonalizado, uma ”coisa qualquer”. Humilhado, açoitado teve a Dignidade de se orgulhar da sua origem, reconstruir uma nova ”Identidade” e fazer reviver seu Povo dentre a miscigenação brasileira. Maria Laurinda é prova disso.
    Nilda e eu tivemos a honra de trazê-la de carona até a casa dela. Muita conversa nesse trajeto. No caminho pediu pra parar – foi colher na ”farmácia” um molho de Transagem – ”para fazer chá”. Foi muito, muito, muito bom.

    Esse foi um ”ingrediente” a mais nessa Passarinhada que sempre é salutar pelo entrosamento do Grupo, das brincadeiras, ”gozações” e certamente, o melhor, das Aves, espetáculo principal de todo enredo e causa de toda história, inclusive essa de conhecer descendentes dos Escravos – Maria Lurinda, Filipe e Maicke.

    • Adalberto, que lindas lembranças! Um complemento imprescindível para o texto já publicado.
      Perfeito!
      Adorei a companhia nesta passarinhada!

    • Obrigada, Adalberto!
      Seu comentário é um complemento importante ao texto. Estou certa que a experiência marcou a todos de uma forma branda e inesquecível.

  2. Parabéns pela matéria maravilhosa Nildinha! A cobertura da passarinhada promovida pela AMOAVES foi leve, informativa, envolvente e cheia de emoções. A forma como os detalhes do final de semana foram descritos nos transporta diretamente para o local e ambiente natural, quase como se estivéssemos lá, ouvindo os cantos das aves e compartilhando da mesma emoção dos de todos nós. É gratificante ver nosso hobby como esse ganhando destaque e sendo registrados com tanta sensibilidade e respeito à natureza. Que venham mais passarinhadas e conteúdos assim, inspiradores, bem escritos e cheios de vida e amor! Sou Amoaves com amor e por amor!

    • Neia, querida amiga!
      Quando a gente escreve, força a mente a lembrar dos acontecimentos, de cada trecho nas estradas, dos lugares… de cada parada, de cada ave fotografada. É um exercício mental maravilhoso também. É um prazer fazer isso!

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